(13/06/2016 /)

É preciso ter esquecido o Muito por amor ao Importante.
Rainer Maria Rilke
Conheci Alda Stutz no início dos anos 2000, na locadora de vídeos Sétima Arte, em Uberlândia, Minas Gerais. Eu devolvia algumas fitas VHS no momento em que a proprietária, Iara Magalhães, nos apresentou:

– Esta é Alda Stutz.

– Mãe de Denise Stutz?

– Você conhece minha filha? – perguntou Alda.

– Já a vi dançar.

Alda tinha um sorriso largo, olhos grandes, uma voz doce e precisa para quem gosta de poesia. Conversamos por algum tempo. Eu havia terminado a faculdade de letras e dirigia um grupo com artistas da cidade. Pesquisava o significado das coisas fora dos livros, e pessoas como Alda e Iara me ajudavam a entender se isso ou aquilo poderia deixar de ser escrito.

Saíamos pela cidade. Falávamos de coisas que existiam fora dela. Assistíamos à projeção de filmes que Iara trazia para os cinemas locais. O que interessava em nossos encontros eram os depoimentos, as ficções, a memória. Alda sabia narrar, como narravam suas escritoras preferidas: Katherine Mansfield, Maria Gabriela Llansol. Alda guardava uma antipatia por Virginia Wolf, porque essa não soube reconhecer o talento de Katherine. Então brigaram. Desde que a conheci, não houve espaço para Virginia em sua casa. Melhor era não tocar no assunto.

Aprendi que sua passagem pelos lugares onde morou a fez juntar um monte de coisas. Ela as guardava em caixas, em seu apartamento no bairro Patrimônio. Em uma de minhas visitas, Alda as abriu e me apresentou os seus amores. Eram muitos: inacabados, finitos. Entendi a situação de risco a qual se põe um corpo ao ver Alda revisitar cada uma de suas conexões. Ela tinha na cabeça aquilo que se aproximava de suas mãos, e vice-versa.

Fitas cassetes, livros de amigos escritores, fotografias, Denise – Alda me ajudava a ficcionar. Aquele monte de caixas e conexões aos poucos iam alimentando meu imaginário. Decidi lhe oferecer um presente. Criei um espetáculo com os artistas que dirigia. Ele se chamava As caixas de Bernarda Alda. Ela adorou a ideia e odiou o resultado. Brigou comigo.

Passaram-se alguns meses, o telefone tocou:

– Passou, né?

– Ufa, Alda, minha intenção era que o espetáculo fosse um presente e não uma tortura.

– Vem pra cá, vamos tomar alguma coisa.

Em sua casa, em meio a uma daquelas crises de artista, ela me mostrou o livro Finita, de Maria Gabriela Llansol. Não sabia se queria me dizer alguma coisa ou apenas apresentar seu mais novo amor. O que eu não imaginava era que aquele exemplar sairia das caixas e teria um novo endereço. Ganhei um presente. Ela me falou de Llansol como alguém que encontra uma estrela no cerrado.

Através de Alda conheci os amigos de Llansol no Brasil e em Portugal. Eles e a própria Llansol me convidaram para dançar a leitura de Finita no Convento da Arrábida. Dancei.

Algum tempo depois, no Rio de Janeiro, me encontrei com Denise. Aquela que antes era uma personagem, agora tinha corpo e voz – pessoas escritas quando vivas podem surpreender. Não era de se esperar, uma boa narradora sabe falar daqueles que se movimentam em sua cabeça. Aquela Denise, parte das conversas entre mim e Alda, não precisava de apresentação. Era como ver, ao mesmo tempo, Alda, Llansol, Katherine e Virginia (sim, até mesmo Virginia) compondo o ritmo da narrativa. Naquele momento, eu sabia que me encontrava com alguém. Encontrar em detrimento de conhecer. Nossa conversa seria dali para frente. E dura até hoje.

Alda morreu. Denise transformou a dor de sua passagem ao fazer a sua mãe dançar. Entretanto, ela não traz Alda para o palco; em Finita, Denise é aquilo que Alda narrou.

XXIII

Quando duas pessoas estão praticamente ao mesmo nível, não precisam falar sobre a melodia das suas horas. Esta é o seu elemento, e é-lhes comum. Está entre elas como um altar ardente e alimentam-lhe a chama sagrada, timidamente, com as suas sílabas raras.

Se retiro as intenções a ambas e as coloco em cena, faço-o obviamente para mostrar dois amantes e explicar porque é que foram abençoados. Mas em cena o altar é invisível e ninguém pode explicar os estranhos gestos dos sacrificados.

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