Primeiro vislumbre: vejo-me enredada às palavras. A condução da fala, do texto e das letras dão o tom na fabricação de sentidos para o que encontro no mundo, no encontro do mundo. Criar documentos que reivindiquem a subjetividade em torno das experiências vividas surge como uma necessidade, uma autodefesa contra a passagem cáustica do tempo, a fragilidade da memória e o acontecimento fugaz da dança. Tenho os pés fincados na língua (órgão, estrutura, português, gramática, verbo, terminologia, conceito e semântica) para poder dar vida às impressões, para auxiliar no trabalho de aprofundamento do sentido das obras. E a dança, como ela poderia extrapolar as bordas do texto para dar continuidade à sua apreensão e factibilidade?
Para ampliar o debate, o Festival Panorama deste ano teve como proposta curatorial de Nayze Lopez as articulações em torno do corpo e da palavra e os diálogos possíveis a partir deste encontro. Dois trabalhos propuseram diferentes relações com o discurso oral, “O que podemos dizer do Pierre”, de Vera Mantero; e “Entre Ver”, de Denise Stutz. Em ambos, de maneiras bem distintas, somos convocados a repensar as noções de dança e do uso cênico do som/texto.

O ponto de convergência entre os dois espetáculos e o diálogo com a curadoria perpassam, inevitavelmente, por algumas das concepções possíveis da palavra “sentido”: discursiva, filosófica e sensorial. Se “todos os seres humanos naturalmente desejam o conhecimento”, como afirma Aristóteles logo na abertura de sua Metafísica, é pelos sentidos que começa esta busca, em especial o sentido da visão. Segundo o filósofo, “preferimos a visão – no geral – a todos os demais sentidos, isto porque de todos os sentidos, é a visão o que melhor contribui para o nosso conhecimento das coisas e revela uma multiplicidade de distinções”.

Destarte, retomamos a discussão proposta no laboratório de crítica do festival na qual analisamos o uso dos verbos “dizer” e “ver” a fim de tratar sobre a percepção/recepção de determinada obra ou discurso. “Ver”, na língua falada, também manifesta a compreensão de algo. “Estou vendo tudo”, “viu o que quis dizer?” são expressões cotidianas. Assim: VER – ENTENDER – COMPREENDER – CAPTURAR. Por conseguinte, o dizer exprime criação de sentido, logo: DIZER – ELUCIDAR – ESCLARECER – CONCEITUAR. À luz dessas ideias, o que se deseja é problematizar sua correlação com as obras.

“O que podemos dizer de Pierre”, solo apresentado no Parque Lage, sob o cair das luzes no fim da tarde, utiliza o áudio de uma gravação de Gilles Deleuze sobre Espinoza. Todo em francês, o som que saía dos alto falantes soava aos não francófonos como um emaranhado de palavras sendo proferidas por um homem, sem necessariamente serem entendidas no seu conteúdo discursivo. Sem “dizer alguma coisa” aos que desconhecem a língua.

Uma tradução do texto foi entregue aos espectadores, mas como não seria possível fazer uma leitura simultânea do texto enquanto acontecia o solo, naquele o momento o que saia pelos alto falantes não parecia ter qualquer ligação com a movimentação. O que se ouvia não se relacionava com o que se via. Juntos, porém, a dança e a palavra atuavam e por que não, dançavam, interagiam como dois dispositivos potentes. Apesar desta “não compreensão” através do que era verbalizado, o ritmo da fala, o tom, as pausas, a construção estético-fonética, a melodia da transmissão, a própria sonoridade da voz de Deleuze dialogavam ainda que não diretamente com o que se via na dança de Vera. Estranhamente, plasmavam-se de alguma forma. Com repetições de movimentos casados, propositais ou não, com partes do discurso; ou mesmo caretas e gestos mais engraçados quando era possível distinguir risadas ou a voz bem-humorada do locutor.

Aqui, vale lembrar que uma das questões mais importantes formuladas por Spinoza foi, justamente, sobre o que pode o corpo quando dissociado da nossa capacidade mental e intelectual para movê-lo e interpretá-lo. “O fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo, isto é, a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode e o que não pode fazer”[i].

Na gravação, Deleuze utiliza uma metáfora para narrar a vida ordinária de Pierre, indivíduo com apetites mundanos, que permanece no primeiro conhecimento, aquele que podemos chamar de senso-comum. Para sair deste lugar, “é preciso um pouco de filosofia”, narra Deleuze, enquanto Vera movimenta-se em uma espécie de dança livre, uma improvisação sobre a dramaturgia de seu corpo há muito já inscrita, topando e cedendo aos encontros com o inesperado e o acaso, como uma árvore, uma criança, os galhos na grama, conhecendo assim, a cada apresentação, novas formas, novos caminhos. Um percurso dançado, entremeado à filosofia do texto alardeado pelos alto-falantes.

Entrever: ver indistinta ou rapidamente, distinguir mal. Nada nos era dado a ver, a priori, na estreia do novo espetáculo de Denise Stutz. O palco italiano do teatro no CCBB, escuro e vazio, nos colocava a todos, imediatamente, na tradicional posição de hierarquia em que se encontram os espectadores e os artistas neste tipo de estrutura cênica: o palco é o lugar de quem realiza a obra, a plateia, de quem apenas assiste.

De saída, Denise borra essas fronteiras junto ao público, no fundo do teatro, de onde vem sua voz. Com as luzes ainda acesas, nos convida a chegar com calma, e esperar. Depois de alguns minutos, fica clara a proposta de deslocar o palco para outro lugar. Mas que lugar seria este?

Narrando o que seriam as suas memórias, da infância, da família, de processos criativos, Denise propunha uma coreografia desenhada por estas imagens. Aos espectadores, ficava o encargo de recriar neste outro espaço, da imaginação, as propostas da artista ou mesmo um novo espetáculo inteiramente seu, a partir do que era narrado. Como não fosse possível recriar em cada um exatamente as imagens que a artista trazia, acontecia naturalmente de, através destas lembranças, criarmos nós também outras memórias, inventadas totalmente ou uma colagem a partir das nossas próprias experiências.

Longe do palco, Denise usava a palavra para se aproximar dos espectadores, para sugerir-lhes imagens e movimentos. Se não havia o que VER, éramos espectadores ou meros ouvintes de uma contação de histórias? Acredito que os que aceitaram o convite puderam vivenciar uma co-autoria do espetáculo, como parte essencial do “ato criador”, do qual depende o artista do público para este coeficiente artístico, pois este “não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior, decifrando e interpretando suas qualidades intrínsecas e, desta forma, acrescenta sua contribuição ao ato criador”, como definiu Marcel Duchamp[ii].

Se não havia o corpo de Denise em dança, havia luz, o outro, a música. E não seriam estes também corpos? No momento final do espetáculo, quando se inicia uma música de Caetano Veloso (It’s a long way – em relação direta com todo o percurso da artista e suas tentativas de autocrítica, desvelamento da posição de artista e proposição de novas formas, vide seus dois últimos trabalhos[iii]), o movimento do público tornou-se, acidentalmente, uma coreografia. Enquanto uns cantavam e outros rodavam a cabeça a procura de Denise, a artista subitamente se levanta e atravessa a plateia, atravessa o palco num clarão de luz e desaparece. Atravessa-nos. Como um fantasma da lembrança, Denise aparece, deixa-se entrever por breves segundos sem olhar para trás, para nunca mais voltar, com o figurino de seu espetáculo anterior, “Finita”, deixando um rastro espectral.

Era memória ou presente?


Ana Pinto é jornalista formada pela PUC-Rio, atriz e aluna da Escola e Faculdade Angel Vianna. Investiga a relação entre as dramaturgias e o movimento nas Artes do Corpo.

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