junho 2014


Anúncios

Vicente Concilio  sobre “Finita” de Denise Stutz.
.

LUZ… LUZ… MAIS LUZ…
Não sei bem por que razões me vieram à mente, e depois aos dedos que digitam este texto, as últimas palavras de Goethe. É bem conhecida a história (ou lenda, ou anedota, ou mentira das boas, sabe-se lá….) que antes de falecer o autor de Fausto teria sussurrado (ou gritado, ou simplesmente dito, sabe-se lá…) a frase “Luz… luz… mais luz”.
Pois depois de ontem, se eu estivesse ao lado de Goethe, teria satisfeito seu pedido oferecendo a ele uma sessão do espetáculo Finita. Sua autora, Denise Stutz, sabe produzir clarões, tanto em cena como em nossa percepção.
Finita expõe em discurso dançado, falado e rabiscado com o corpo pelo espaço um ensaio sobre o fim (e seu contrário) para dialogar com a questão da ausência (e seu contrário). 
Fantasmas povoam o espaço da cena, a cada fala expressa, a cada vazio evocado pelos lampejos da memória em voz alta, a cada complemento sugerido pelo espaço deixado deliberadamente vazio. 
A cena fica assombrada pelos espectros de um mundo que desapareceu mas que existe na poderosa máquina de lembrar que nos compõem e, muitas vezes, nos controla. Não é possível despedir-se daquilo que nos é tão caro. Daquilo que é nossa carne. Eis um adeus dolorido, exposto. Porém exposto em um viés contrário à autopiedade ou à exibição escancarada de uma intimidade em sofrimento: a plateia é convidada a presenciar um jogo suave e maduro, emocionante porém calcado em pensamento e razão. 
A parceria envolve um jogo racional, o que torna a aparente leveza em um corre-corre contínuo entre cena e sentido, desvelando na superfície aparentemente simples das declarações e gestos a verdadeira profundidade da exposição a que Denise se propõe.
Finita pode ter uma dimensão que faz jus a seu título, mas isso só comprova que somos maiores: o espetáculo é um pedaço de mundo e de coisas que são, em verdade, sem fim.