De volta ao minimalismo de “Retrospectiva”, estico os olhos a outra parede, para além de Jeane Lima, vejo Denise Stutz. No mesmo Festival essa dançarina entrou como autora de um solo que considero relevante. De minimalismo diferente, sua peça “Finita” ocorreu num teatro, sem um cenário também, mas alguns objetos foram espalhados em cena.6 Como esse recurso visual dialoga com a obra – é o que veremos a seguir.
“Finita” começa com luzes acesas, a revelar-nos como pessoas, plateia tirada da escuridão. No palco percebo alguns objetos: cadeira; toca-discos sobre a mesinha; uma camisa estirada no chão. Sobre os dois primeiros, deduzo, são objetos da intimidade do lar, onde se ouve música. E aquela camisa, aberta para ser mostrada como camisa, e não outra coisa, por si, sugere uma ausência, reclama um corpo. Guarda um fantasma…
As formas visuais, signos por mim elaborados como linguagem, me permitem apostar numa expressão simbólica: um corpo ausente no lar.7 Outras informações integram aquela “ausência”. Pelo seu blog e/ou encarte, sabemos de uma carta de sua mãe, falecida recentemente, algo visceral. Outros pensamentos expostos, idade, solidão, limites; sentimentos íntimos para Denise se expressar em dança – “Finita”. Ao palco, leva sua própria pessoa “…porque não sei fazer para o público.”8
Nesse teatro, onde as luzes acesas incomodam a plateia, entrevemo-nos, fora do habitual. Então ativos no espetáculo, ouvimos uma música na vitrola, enquanto Denise inicia um perambular-dançar, livre, chega às cadeiras, junto a nós. A proximidade física força intimidade, até que as luzes se apagam. Na escuridão, ouvimos apenas um estalar de dedos, num jogo de presença e ausência.
Tendo na vitrola um referencial básico, a segunda parte da obra se estende em devaneios entorno da música. São ideias associadas: trilha de filme antigo, disco fora de catálogo, comprado numa loja de raridades, a qual já não existe. Numa narrativa de informações incompletas, quase captamos sua totalidade… Só que não. É mensagem fugaz.
Tento identificar nela minha própria história urbana, imagens possíveis pra mim, semelhantes, cariocas. A música também lhe trazia a memória um dado livro do passado, cuja personagem não falava saudade, mas nostalgia. Quando veste a camisa deixada no chão, a dinâmica muda de tom. O corpo ausente agora está nela, por insinuação de plano espiritual.
É uma nova etapa na peça, agora dedicada a dança propriamente. Denise Stutz, vestida naquela camisa e sentada na cadeira, dá inicio a uma dança lenta, melancólica. Assumia a “saudade”, entendi assim, um intenso sentimento de perda, desamparada de mãe. Estala os dedos e esse movimento me traz a intuição de já tê-lo visto antes – uma lembrança imprecisa.
Quando se levanta, realiza movimentos vigorosos, com estalos de dedos corridos, noto seu esforço pelo arfar… Aproxima-se de nós, fala coisas e busca confirmação… Sua fala “non-sense” traz referências de espetáculos em cartaz, que me escapam; era código do mundo da dança vivido. Os estalos são marcações de ensaios, guardam um simbolismo de tempo, rotinas, automatismo; o trabalho como exorcismo da memória, dos sentimentos, da dor.
Presença e ausência, saudade e nostalgia, o tempo passado e o cotidiano; a vitrola surge abafada, em falha, som estranho. Algo fora do lugar… As luzes se apagam no palco, Denise some; os estalos ficam. As luzes na plateia permanecem; as caixas de som projetam estalos em nós, numa instigação desconcertante – Quem estala? Ao lado, ali atrás… Ninguém… O que faremos? Dançaremos? Nosso show se inicia, a plateia em destaque – fim de espetáculo.
Na vitrola, apoio sensorial para as várias mídias (música, cinema, teatro, disco, livro), há uma fuga do plano físico, transbordos de imagens entre objetos e os sentidos que os envolvem. Intuições, leituras íntimas em mim, são experiências sensíveis abertas na obra, numa performance de envolvimento. Instigado ao limite, senti-me quase livre para respondê-la em cena, dançar até, como ato final. Escrever isso, agora, completa-me a obra.
O brilho de Finita, portanto, exige o digest posterior. Dentro do teatro, os simbolismos usados despertam-me para um jogo, no qual busco um fio de razão. Sofro gradativas combinações de sentidos e através dessas: faço imersão em sua memória e sentimentos particulares. Capto uma parte da obra. É a obra como foi, em Denise Stutz, em ato; e depois, quando descubro outras sensações, maravilho-me, e seu gesto se realiza em mim.

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