março 2014


De volta ao minimalismo de “Retrospectiva”, estico os olhos a outra parede, para além de Jeane Lima, vejo Denise Stutz. No mesmo Festival essa dançarina entrou como autora de um solo que considero relevante. De minimalismo diferente, sua peça “Finita” ocorreu num teatro, sem um cenário também, mas alguns objetos foram espalhados em cena.6 Como esse recurso visual dialoga com a obra – é o que veremos a seguir.
“Finita” começa com luzes acesas, a revelar-nos como pessoas, plateia tirada da escuridão. No palco percebo alguns objetos: cadeira; toca-discos sobre a mesinha; uma camisa estirada no chão. Sobre os dois primeiros, deduzo, são objetos da intimidade do lar, onde se ouve música. E aquela camisa, aberta para ser mostrada como camisa, e não outra coisa, por si, sugere uma ausência, reclama um corpo. Guarda um fantasma…
As formas visuais, signos por mim elaborados como linguagem, me permitem apostar numa expressão simbólica: um corpo ausente no lar.7 Outras informações integram aquela “ausência”. Pelo seu blog e/ou encarte, sabemos de uma carta de sua mãe, falecida recentemente, algo visceral. Outros pensamentos expostos, idade, solidão, limites; sentimentos íntimos para Denise se expressar em dança – “Finita”. Ao palco, leva sua própria pessoa “…porque não sei fazer para o público.”8
Nesse teatro, onde as luzes acesas incomodam a plateia, entrevemo-nos, fora do habitual. Então ativos no espetáculo, ouvimos uma música na vitrola, enquanto Denise inicia um perambular-dançar, livre, chega às cadeiras, junto a nós. A proximidade física força intimidade, até que as luzes se apagam. Na escuridão, ouvimos apenas um estalar de dedos, num jogo de presença e ausência.
Tendo na vitrola um referencial básico, a segunda parte da obra se estende em devaneios entorno da música. São ideias associadas: trilha de filme antigo, disco fora de catálogo, comprado numa loja de raridades, a qual já não existe. Numa narrativa de informações incompletas, quase captamos sua totalidade… Só que não. É mensagem fugaz.
Tento identificar nela minha própria história urbana, imagens possíveis pra mim, semelhantes, cariocas. A música também lhe trazia a memória um dado livro do passado, cuja personagem não falava saudade, mas nostalgia. Quando veste a camisa deixada no chão, a dinâmica muda de tom. O corpo ausente agora está nela, por insinuação de plano espiritual.
É uma nova etapa na peça, agora dedicada a dança propriamente. Denise Stutz, vestida naquela camisa e sentada na cadeira, dá inicio a uma dança lenta, melancólica. Assumia a “saudade”, entendi assim, um intenso sentimento de perda, desamparada de mãe. Estala os dedos e esse movimento me traz a intuição de já tê-lo visto antes – uma lembrança imprecisa.
Quando se levanta, realiza movimentos vigorosos, com estalos de dedos corridos, noto seu esforço pelo arfar… Aproxima-se de nós, fala coisas e busca confirmação… Sua fala “non-sense” traz referências de espetáculos em cartaz, que me escapam; era código do mundo da dança vivido. Os estalos são marcações de ensaios, guardam um simbolismo de tempo, rotinas, automatismo; o trabalho como exorcismo da memória, dos sentimentos, da dor.
Presença e ausência, saudade e nostalgia, o tempo passado e o cotidiano; a vitrola surge abafada, em falha, som estranho. Algo fora do lugar… As luzes se apagam no palco, Denise some; os estalos ficam. As luzes na plateia permanecem; as caixas de som projetam estalos em nós, numa instigação desconcertante – Quem estala? Ao lado, ali atrás… Ninguém… O que faremos? Dançaremos? Nosso show se inicia, a plateia em destaque – fim de espetáculo.
Na vitrola, apoio sensorial para as várias mídias (música, cinema, teatro, disco, livro), há uma fuga do plano físico, transbordos de imagens entre objetos e os sentidos que os envolvem. Intuições, leituras íntimas em mim, são experiências sensíveis abertas na obra, numa performance de envolvimento. Instigado ao limite, senti-me quase livre para respondê-la em cena, dançar até, como ato final. Escrever isso, agora, completa-me a obra.
O brilho de Finita, portanto, exige o digest posterior. Dentro do teatro, os simbolismos usados despertam-me para um jogo, no qual busco um fio de razão. Sofro gradativas combinações de sentidos e através dessas: faço imersão em sua memória e sentimentos particulares. Capto uma parte da obra. É a obra como foi, em Denise Stutz, em ato; e depois, quando descubro outras sensações, maravilho-me, e seu gesto se realiza em mim.

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Lembranças pessoais podem tocar a memória de todos? Se contadas com uma fina sensibilidade para abordar aquilo que nos une e nos faz humanos, sim. O novo solo de Denise Stutz é uma delicada prova disso. EmFinita, Denise convoca palavras e movimentos para preencher o vazio de uma ausência, o silêncio de uma espera. Nostalgia, expressão talvez mais cheia de sentidos que saudade, dá o tom do espetáculo. Mas a ansiedade a acompanha. Denise coloca um disco, dança, conversa conosco, sai do palco, senta na plateia e nos faz imaginar um encontro que está por vir, uma dança que ainda vai acontecer.

É um espetáculo sem afetação, é como um sussurro: finita é a vida. Denise faz um recorte no tempo que passa e segue dançando. Sua presença ainda está conosco depois que deixamos o teatro, contaminando pensamentos e conversas. E então percebo que esse encontro e essa dança que assistimos são povoados por todos os encontros e todas as danças já realizadas e por realizar. No real, na imaginação e na lembrança.

 

 

***Sobre o autor

Silvia Chalub é jornalista, formada em comunicação visual com pós-graduação em comunicação e imagem, ambos na PUC – RJ. Desde 1999, é coordenadora geral da editora Saber Viver Comunicação, que produz publicações na área de saúde. Há dois anos, pratica dança contemporânea nas oficinas oferecidas pelo Espaço Corpo, projeto do SESC Rio. Em 2013, iniciou seus estudos sobre teoria da dança através de cursos ministrados no SESC e na Escola de Comunicação da UFRJ.

 

E se. . .

Por Julia Baker

 

Finita começa com um vazio. O espectador entra no teatro e encontra apenas uma cadeira, um casaco e uma vitrola. Logo surge a questão que irá nortear o espetáculo: onde está o performer? Quem deve ser visto: a platéia ou o palco?

Denise Stutz joga com o lugar do palco e do espectador durante toda a sua apresentação. Primeiro ela desconstrói  o espetáculo. Ela apenas nos diz o que imagina que este poderia ser. A real criação da cena se dá na mente de cada espectador. Ao sermos embalados pela música que guiou Denise em sua criação, começamos a imaginar o que será e o que poderia ter sido o espetáculo que estamos assistindo.  Denise cria uma cumplicidade com seu público ao questioná-lo a todo minuto. Ela quer que ele participe de sua criação. Os contornos da apresentação são dados pelo público pois o verdadeiro espetáculo acontece nas imagens que o espectador cria a partir do texto de Denise. Apesar da dança ser uma arte ligada a visão, Denise quase não realiza movimentos, esses serão feitos pelo público, em sua imaginação. O espetáculo pode tomar várias formas, como a coreógrafa mesma diz: e se….

O “e se” se transforma eternamente dentro do espectador. Denise faz referência a diversos espetáculos e ativa essa memória em nós. Mas, da mesma forma que criamos o espetáculo de Denise em nossas mentes, recriamos as performances que ela evoca de maneiras diferentes. A ativação da memória individual de cada um se dá de forma diferente e o que guardamos de cada espetáculo é único, logo ao reativar os espetáculos para o público, Denise convida as pessoas a relembrar momentos vivenciados em certos espetáculos que o público assistiu e, caso não tenham essa referência, cada um cria um novo espetáculo em sua mente. Assim vamos, junto com a artista, criando memórias e nostagias de peças que nos são familiares ou inventando novas histórias.

Outro fator muito interessante em Finita é que o lugar entre o performer e o público é trocado constantemente. Através do deslocamente de Denise para a cadeira da platéia, a linha que existe entre palco e público é desfeita, esses se fundem constantemente durante os 40 minutos de espetáculo.

Finita consegue fazer parte de todos não apenas por ativar memórias relacionadas a espetáculos que assistimos. Assim como em seu solo anterior “3 solos em 1 tempo” , Denise coloca em cena questões muito intimas. Nesse novo trabalho ele nos apresenta uma carta que sua mãe lhe escreveu e fala sobre saudade e nostalgia. Denise nos expõe suas questões como filha e como mãe. O tempo passou mas sobrou a memória, a lembrança daqueles momentos em família. A memória de sua mãe estará sempre presente mesmo após a morte. Uma memória afetiva com a qual todos conseguem se indetificar e, mais uma vez, quebrar a barreira entre palco e platéia.

Ao final de sua apresentação podemos sentir essa mistura entre platéia e palco com grande intensidade. A ideia é que não exista mais audiência e artista, os dois são iguais pois a história que é contada; é contada por ambos. Essa história é sempre misturada e acrescentada aos nossos referênciais e, através dessa mistura, se torna o espetáculo que vi naquele dia em determinado momento de minha vida.

 

Sobre a autora:

Julia Baker é formada em Ciências Sociais e Produção Cultural. Atualmente termina o curso de extensão em História da Arte e da Arquitetura no Brasil na PUC/Rio. Já trabalhou na equipe de produção do Festival Panorama e atualmente atua como assessora curatorial no Museu de Arte do Rio (MAR).

Foto: CLAP

 

Uma quase-carta. Porque não pude falar.

Por Sérgio Andrade

 

Uma cadeira, uma mulher, uma música antiga, algumas memórias e uma blusa listrada azul de mangas cumpridas estirada no chão. Ela veste a blusa.

O espetáculo Finita, de Denise Stutz, partilha assim um encontro com alguém – alguém que poderia ser um amigo distante ou até mesmo eu ali sentado, um outro qualquer convidado a imaginar uma dança sem ver. Ao longo da performance, Denise Stutz aciona as memórias de uma carta enviada por sua Mãe, que também já era avó de Guilherme, único neto, a qual lhe dissera escrito: “Gosto dessa portuguesa que ao invés de dizer saudade diz nostalgia”.

É em tom de nostalgia que ela dança, contando os estalos dos dedos, contando a pulsação dos seus passos e também nos contando as imagens todas que estão para acontecer nesse encontro marcado. Conta “para não escutar o silêncio”, a distância abissal entre um passo e outro, uma memória e outra, ela e o público. E assim ela nos repete: “é preciso contar”.

A dança de Denise parece uma pequena máquina de escapes. Meio as suas memórias, a bailarina, que em sua trajetória carrega tantos encontros e experiências na dança faz citações a espetáculos que poderiam dançar aquele estar com o outro no escuro: “um chão carregado de cravos vermelhos“, “um espaço que de repente ficasse todo preto de gente“, “um palco de pelúcia marrom“, ou “um, e não 100 gestos, que fosse capaz de dizer tudo”. Denise assim nos convida a imaginar que sua dança poderia ser qualquer dança. Qualquer uma que celebrasse o encontro. Uma dança assombrada pelas danças de outros amigos e pela lembrança da loja de discos que não está mais entre a Barata Ribeiro e a Santa Clara, no bairro de Copacabana – a qual eu nunca conheci, pois quando me mudei para o Rio ela já não estava mais lá.

Mesmo sem ter vivido aquelas mesmas memórias que Denise, sem ter assistido Bagdad Café, mesmo não sendo personagem de quase nenhuma daquelas cenas citadas, em algum momento posso ser capturado a dançar com ela. Seja por memória individual ou coletiva, quem dança com Denise é convidado a pensar no singular encontro que é estar ali. Sim, é certo que assim o é toda dança: singular. Mas ao nos convidar a ativar tantas imagens que nunca se completam na agoreidade de sua performance, Finita se coloca como uma máquina especial de fazer des-aparecer danças tão outras (dos outros) que me fez crer, por instantes, que poderiam não estar ali nem eu, nem aquelas coisas invocadas. Mas eu estava e aqueles fantasmas todos também. Disso, a contingência criada por Finita não me deixava esquecer.

 

[…]

 

Após o espetáculo eu não consegui falar muito a Denise. Não sabia o que ter que dizer. Afinal, o que se tem que dizer a alguém que nos conta nostalgias tão suas? O que dizer diante as perdas de alguém ou diante do que passou? Seria uma dança, uma carta, uma biografia, a perda?

Assisti Finita na tarde do dia 25 de outubro no Festival Panorama 2013, durante a sessão para o Programa Educativo do Festival, na sala acústica da Cidade das Artes (RJ). Era a estreia do Festival, para poucos. A plateia estava composta de uma série de jovens da Rede Municipal de Educação do Rio e dentre eles estavam alguns alunos da Escola Estadual Dr. Alberto Sabin que tinham algum grau de surdez. Como boa parte da dança era falada, ao lado, no canto esquerdo do palco, uma intérprete de libras traduzia as palavras de Denise. Aqueles que assistiam a intérprete de libras traduzindo as “contagens” e “contações” de Denise, não conseguiam ver, ao mesmo tempo, os outros gestos rascunhados pela bailarina que dançava enquanto falava. Olhar as libras (à esquerda, quase na penumbra), olhar a bailarina (à direita). Lá e cá, entre elas, outra vez, aquele vazio, o qual Denise disse preferir encher de contagens para não escutar o silêncio – que nunca foi ausência de som, nem de sentido.

 

[Quais trilhas sonoras tocam quando você se sente só?]

 

Na saída da sala acústica, alguns participantes do Laboratório de Crítica[1] iniciaram uma discussão sobre a contingência daquela tradução que em algum momento criava uma hierarquia entre o som que se falava em detrimento do corpo que se movia no espaço. Mas não seria “próprio” da nostalgia tal improbidade ou impropriedade, perda ou rapto, parasitologia ou assombro? No encontro com o outro, não estaríamos desde sempre todos surdos? As ruínas de pensamento – memórias – não são esse gap espaço-temporal o qual não nos deixa nunca viver plenamente a agoreidade, mesmo que essa agoreidade seja uma dança? Essa não seria a dança mesma, a coisa acionada por Denise Stutz naquela tarde?

Talvez porque essas perguntas todas me roubavam a atenção enquanto [eu] [ela] dançava, que no corredor, após o fim de Finita, que ao mesmo tempo era intervalo entre uma performance e outra da programação do Festival, quando reencontrei Denise não soube o que lhe dizer [e esse lhe pode ser transferido a você que lê agora].

 

[Não soube o que lhe dizer, repito.]

 

Engraçado que durante a apresentação de Finita, algumas poucas horas antes desse reencontro no corredor, ela veio até mim, muito próxima, sentou numa cadeira vazia na plateia, logo a minha frente, e me perguntou se aquela dança que estava para acontecer não poderia ser como uma das tantas danças que vi nos palcos cariocas nos últimos dois anos. Melhor, ela não me disse diretamente quais danças eram essas, mas, pelas imagens em ruínas que me foram acionadas quando interpelado, sem titubear, lhe acenei a cabeça dizendo “sim”. Sem demora, pensei instantaneamente que naquele palco vazio poder-se-ia tomar lugar uma dança de Lia Rodrigues, de Marcelo Evelin, de Marcela Levi, Dani Lima ou talvez minha. Poder-se-iam também os cravos vermelhos de Pina Bausch, os quais só vi em vídeo pela internet. Poder-se-iam, ainda, outras tantas que não consegui capturar enquanto dançava. Pensei sem pensar: “Sim, sim, Denise”. Poder-se-ia qualquer uma, desde que fosse um encontro como esse que é singular. Uma dança pode sempre ser qualquer outra, desde que ainda singular.

Mas no corredor, longe do palco, mesmo assombrado por todas essas danças, quando reencontrei aquela mulher, que nada me perguntara sobre seu solo naquele momento, somente a abracei, dei-lhe um beijo desarranjado e disse sorrindo: “finita”.

Finita aciona a acontecimentalidade das memórias que escapam, das distâncias que de tão longe nos perseguem lado a lado. Há buracos. As coisas faltam e as mães, as mulheres finitas, também… A dança faz [a] falta. O fim, como o fim de um espetáculo, também faz falta. O som que tocava numa das cenas, inclusive, falhou. Engasgo[u].

 

Finita me faz lembrar, talvez, que as coisas quando faltam podem engasgar e que um certo mutismo, mesmo cheio de “contagens” e “contações”, é incondicional.

 

Ao seu comando, apagaram-se as luzes da plateia, acenderam-se as luzes do palco. E, agora, nele o público foi convidado a imaginar-dançar a dança, como aquele que tenta colar e saltar as ruínas todas lançadas por um corpo ao som da única música que, em silêncio, se repetiu em todo o espetáculo.

 

[Antes de começar a escrever esse texto, me perguntei em qual tom deveria desenha-lo. Como quando se escreve uma carta para alguém distante, alhures, e que não se sabe se e como ela vai chegar, mas ainda há o envio. Ou, ainda, a dúvida que se faz quando se escreve para o outro que mesmo estando ao meu lado agora enquanto escrevo, permaneceria como, lado a lado, uma cadeira vazia na mesma fileira da plateia de um teatro. Esse “ele”, “ela” ou “it”, que envio nunca estará aí plenamente junto e acordado – essa palavra tão dupla que ao mesmo tempo remete ao despertar e ao contrato que se faz com alguém, no qual se assina e se diz: “está acordado entre as partes”. Como se assina um contrato estando incondicionalmente longe? […] Certamente inventei outros parasitas, traças, que não retornam aos escritos de Finita. Você poderia ouvir as palavras que eu digo? Espero que não. Espero que estejamos sempre surdos e que precisemos das traduções infinitas, com ou sem libras, que nos criam ainda mais buracos e nostalgias. Talvez seja esse um dos tons que aqui tentei assinar: um perdão pela falta que se fez naquele reencontro da tarde de Sábado].

 

Assino.

 

Sobre o Autor

Sérgio Andrade é professor do Departamento de Arte Corporal da UFRJ, dos cursos de Bacharelado em Teoria da Dança, Bacharelado em Dança e Licenciatura em Dança. Doutorando em Filosofia pela PUC-Rio, Mestre em Filosofia pela PUC-Rio, Mestre em Artes Cênicas pela UFBA e Licenciado em Dança pela UFBA. É pesquisador e artista de Dança e Performance. Desde 2012 coordena o Laboratório de Crítica e colabora com o Programa Educativo do Festival Panorama.