querida, escrevi isso depois do seu ensaio e fiquei com vontade de partilhar contigo.

beijo!
 
“a loja de discos que ficava entre a sta clara e a barata ribeiro fechou” 
essa foi a primeira frase que eu ouvi no ensaio “Finita”, peça de Denise Stutz a estrear em duas semanas no Festival Panorama. 
Ouvi e pensei num elevador que cai no poço e vc fica lá de cara pro buraco. Já nesse momento senti a presença da ausência gritando forte. Tava lá de cara, as vezes de costas, pra Denise, pruma sala pelada, e os fantasmas todos ali passando, dando zoou in e out na minha cara. Fantasmas visíveis, audíveis que apareciam e desapareciam. Dizem que loucos, atores e animais não tem direito ao ato de fala, não respondem por si… lembrei que sempre sublinho meus livros com lápis, pois sei que posso apagar. Outro dia, no ônibus, procurei o lápis e só tinha caneta, mas eu precisava sublinhar: “ñao, de caneta não dá, não vou poder apagar…”. tinha que sublinhar e aí sublinhei com a linha mais leve que pude fazer, que saiu fina e trêmula por conta do sacolejo do ônibus e da relutância da minha mão e aí pensei na sublinhada forte feita de lápis, que pode ser apagada e pensei no teatro: lugar dos fantasmas, dos mundos construídos à lápis. mundos ousados, carregados de tinta forte (por)que vão desaparecer em breve. Mas vão ficar os fantasmas, aqueles passageiros que te assaltam em qualquer lugar, que são trêmulos, rápidos, que se vê, mas nunca se sabe por quanto tempo,  e aí fiquei pensando que os fantasmas são escritos de caneta, ao contrário da gente que escreve forte à lápis, porque vai desaparecer… e aí qdo desaparece, ninguém mais apaga.
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