Uma dança feita de gestos quase invisíveis que se transformam em um  movimento imperceptível e este movimento cria sentido que ultrapassa cada gesto e cada movimento.

– Aqui não tem movimento, então construo palavras, a escrita me salva.

– uma dança sem movimento, sem gesto.

– é aqui na quase morte que estou olhando para minha quase vida.

– Estranhas são as intimidades de hospital.

– em alguns momentos me perdi nela, me pergunto o porque de uma existência que já não deseja a si própria. Estou perdida no sofrimento dela ( ou seria o meu sofrimento?) sem entender para onde foi a mulher que já não existe mais. Eu também estou deixando de existir e me vejo aos poucos desaparecendo dentro dela.

– Este lugar entre… um mundo ao lado e desconhecido, essa gente que é muita e que eu não conheço. Que é uma vida outra. A estranheza é só minha. O susto é só meu vendo a vida dos muitos e enxergando a minha vida de poucos.    …deles/ de onde vem esta alegria pequena e simples?

–  Entendi  deles:  com deus é até logo  e em nome de jesus são todas as esperanças do mundo.

– somos os outros, os médicos e eu.

– Só escuto o som  do gemido de um corpo grande do outro lado de uma cortina fina que separa os dois corpos quase sem vida. um homem aparece e compara a mulher grande com o corpo pequeno da mulher que um dia foi minha mãe. O pequeno corpo não geme, dorme.

– Não existe poesia no tempo.

– A mulher jovem entrou no quarto e falou uma esperança.

– Tento entender o movimento da escrita, palavra por palavra, letra por letra. Não entendo. A minha escrita é com o corpo. a minha palavra é com o corpo. a minha letra e a minha palavra não existem sem movimento.

– … e depois? e depois? e depois? ela pergunta. Não sei, não sei , não sei .. eu não respondo.

 

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