Muitos pensamentos de domingo de manhã em voz alta.

Ao ver o trabalho novo da Marcela Levi, a Denise se/me perguntou se havia uma volta ao espetáculo. Achei a pergunta tão sensível que coloquei-a para mim e agora acho que talvez este seja o maior ponto de conexão entre o “ao redor do buraco tudo é beira” e “justo uma imagem”. Nos dois casos, cada qual a sua maneira bastante diversa, a dramaturgia que se posa provém do ato de olhar. Talvez por isso a imagem seja nossa temática tão fundamental.

A sensação que tenho é que, depois de pedir tanta atividade física da platéia, esteamos numa volta ao visionamento. É esta nossa questão. Estabelecer um regime de imagens que nos permita recuperar o sentido da visão. (e ao fazê-lo inserir a imagem num paradoxo, ou fazê-lo porque a imagem se insere num paradoxo) A questão que penso é que falamos como civilizados. Até agora estabelecemo-nos na civilização do clichê – e este é um termo ótimo utilizado pelo Deleuze. A profusão de imagens cujo fluxo se insiste em definir a contemporaneidade, é uma profusão que antes vela a imagem – e vela-a por que retira-lhe a selvageria, extingue-lhe a barbárie em prol do significado claro. É a imagem publicitária, veicular, narrativa, realista, etc. No entanto são imagens mortas. (lembrei-me de um stencil na parede lateral da Sala Cecilia Meirelles aqui bem perto: acabareis todos por morrerem de conforto) A imagem se torna confortável, por um processo de supervalorização que fá-la senão um fetiche. Valorizar é sufocar a imagem.

Como acessá-la então? Talvez seja aí que ela valha-nos a impregnação. A Denise, sempre a Denise, talvez umas das pessoas que mais me ensinem a olhar, chamou atenção para a resposta ao espetáculo – e já falo essa palavra sem medo – que as pessoas desavisadas nos deram. (Vi isso também com minha mãe!) O vigor dessas respostas parte justo daí, do fato de que por chegarem desavisadas, elas esperaram um espetáculo de fato, e não a sua crítica tácita e contundente. (e a questão aqui se desdobra mais por não esperarem essa crítica do que por haver ou não tal crítica). Com efeito, não impuseram ao espetáculo esta metaquestão que de tanto brigar com o clichê, tornou-se ela própria seu maior inimigo. Esse público desavisado, permitiu-se ver, assistir, impregnar-se. Achei importante ver as pessoas que saíram sem ter o que falar da nossa obra em processo. Das que nada falaram e que eu conhecia, o assunto voltou à pauta dias depois. Chegaram-me descrições pragmáticas que revelavam sensações incertas a partir das quais construíam-se pensamentos que justo por não se preocuparem em organizar a narrativa do espetáculo, forjavam-lhe a dramaturgia.

A imagem bárbara – e talvez isso seja um pleonasmo – é bárbara antes de tudo por adequar antigos lugares. A civilização  consciente de que sustenta a barbarie não  consegue mais ser colonialista, sob pena de não conseguir se manter se não evocar e deslanchar de si mesma e para si mesma a selvageria. A civilização prefere a imagem ao fantasma. varre de si o fascismo para encontrar a selvageria. A questão deixa de ser – se é que foi – é a do mal-estar, e mostra-se simplesmente insuportável, o que me parece bem mais interessante.

Imagem solitária, imagem sem texto? Não.  A imagem não anula nem se perde do texto, e de fomra geral ainda menos o repulsa. Ela simplesmente liberta-se dele e liberta-o de si, para que possam finalmente se relacionar. Ela tira dele a obrigatoriedade de dar-lhe um cabimento, enquanto o texto também se permite surjir como um espasmo. Nesse regime sem legenda, o paradoxo é o de a imagem importar tanto mais quanto menos importância (valor) ela tiver.

O espetáculo é espetáculo, por que sendo ele puro pensamento, ele não diz nada – o que é bem diferente da relação que o teatro da década de 1990, por exemplo, estabelece como o nada, quando os espetáculos nada “queriam” dizer. A volta do espetáculo, da visão como fator de contato primordial, da proximidade que só se dá pela distância, pela mais participativa solitude é uma ode à interiorização, à reflexão e à desacelaração tanto do bailarino de ter que se mostrar intelectualizado (independente de ser este o seu tipo de inteligência) e do público de ter já algo a dizer (independente de de fato ter), e de serem obrigados a processarem a obra como se ela fosse uma informação, caminho tortuoso  porém  confortável que se encerra no mais comum dos lugares.

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